As origens do Libre

Finalmente: Libre, uma série de episódios de podcast sobre a não-monogamia – e, portanto, sobre a monogamia, também – e violência de gênero. Este podcast nasceu como uma maneira de compartilhar com o mundo um pouco do que eu tenho pesquisado nos últimos 5 anos.


Minha história antes do Libre

Em 2014, depois de romper um casamento abusivo, eu decidi que nunca mais estaria em um relacionamento onde meu corpo e sexualidade fossem controlados por alguém que não eu. Eu tinha ouvido falar do que chamamos de “relacionamentos livres” no Brasil (um conceito mais próximo da anarquia relacional do que de “amor livre”, “poliamory” e outros, como eu pretendo explicar em um dos episódios do podcast) e decidi que essa seria a minha maneira de lidar com relacionamentos. Coincidência ou não, alguns meses depois dessa decisão eu conheci meu ex-parceiro, que hoje é um grande amigo, que era ativista na rede de relacionamentos livres (RLi) brasileira. Junto a ativistas deste e de outros grupos NM – não-mono (como abreviamos carinhosamente a não-monogamia) – eu descobri esse universo. Como socióloga, também comecei a estudar e debater a não-monogamia a partir de uma perspectiva teórica.

Embora meu doutorado tenha sido um pouco diferente (pesquisei a recepção do conceito de gênero no Brasil e você pode ler minha dissertação aqui), eu avancei parte da minha pesquisa atual durante esse período. Grupos de estudo, debates, e algumas pesquisas individuais têm me ajudado a me aprofundar nesse novo objeto de pesquisa. Minha principal preocupação foi identificar as formas em que a monogamia como um sistema é um terreno fértil para a violência de gênero nas relações e, muito parecido com o que eu vivi no meu casamento, para a violência doméstica também.

Meu trabalho aqui em Berlim é dividido em três atividades principais: pesquisa, podcasts e filmes!


Pesquisa

Desde muito antes de chegar na Alemanha em julho de 2018 – duas semanas depois de descobrir que eu estava grávida (!), mas isso é outra história – eu já havia começado a pesquisa: não só lendo e analisando livros, teoria, websites, quadrinhos, notícias, mas também conversando com pessoas que vivem NM sobre suas experiências, luta, desafios e a beleza que vêem em seu estilo de vida. Isso me levou a perceber, no entanto, que a não-monogamia é muito mais do que um estilo de vida e tem um lado político. Tal aspecto da experiência NM desafia o status quo sobre a forma como as relações e o amor devem ser, e ajuda a questionar os mecanismos que tornam os relacionamentos um espaço tão fértil para o gênero/violência doméstica.

Assim, a pesquisa é a base para todo o meu trabalho com podcasts e filmes e, felizmente, também está me permitindo preparar um livro para 2020 ou 2021 sobre o tema.

Podcast: Libre

É aqui que entra o Libre: o podcast foi projetado para compartilhar com o público falante de inglês e português (talvez um dia também em outros idiomas, se eu tiver tempo para isso) as principais percepções e descobertas da pesquisa. A ideia é que, além de uma perspectiva teórica e política, os episódios tragam um pouco das experiências reais das pessoas e também algumas análises de filmes e séries, que normalmente são os principais produtos culturais usados para ensinar sobre o amor e relacionamentos em nossa sociedade.

Filmes: o festival Berlin Feminist Film Week

Para esse processo estou sendo apoiada não só pela Fundação Alexander von Humboldt, mas também pelo festival de cinema feminista Berlin Feminist Film Week, que acontece aqui em Berlim todo ano. Esta parceria específica serve para disseminar estes questionamentos sobre o amor a um público mais amplo. Como pesquisadora, vou curar algumas sessões para o festival e organizar debates sobre filmes, com atenção especial aos filmes que nos ajudam a mudar a maneira como vemos o amor e relacionamentos. Os resultados deste processo estarão disponíveis para todos em Berlim, na edição do festival de março de 2020. Entre em contato pelo formulário aqui no site caso queira sugerir um filme brasileiro para o festival! 🙂

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *